Aquecimento Global
O planeta em xeque-mate
Pela primeira vez, um relatório da ONU classifica o aquecimento global como "inequívoco" e alerta o mundo para os graves efeitos das mudanças climáticas
O último relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), da Organização das Nações Unidas (ONU), não deixa dúvidas: o homem desequilibrou o planeta e sofrerá nas próximas décadas efeitos cada vez mais nefastos das mudanças climáticas. O documento, o mais amplo e completo já elaborado sobre o tema, é o quarto divulgado pela instituição sobre as mudanças do clima e é resultado do consenso de mais de 3,7 mil cientistas de 130 países. Foi elaborado com base em evidências científicas e classifica o aquecimento global como um fenômeno "inequívoco", além de afirmar que as emissões de gases por indústrias e veículos são "muito provavelmente" as principais causas desse aquecimento. O que até então pode ter soado como discurso de ambientalistas radicais ganhou comprovação da ciência e se tornou uma preocupação mundial, passando a compor em caráter emergencial a agenda oficial das nações. Até governos que sempre resistiram à idéia de que o planeta vem sendo aquecido pela ação do homem, como o dos EUA, agora se rendem às evidências.
Os cientistas advertem sobre os riscos de catástrofes ambientais. Há certeza quase absoluta de que o clima mais quente intensificará secas e tempestades, elevará o nível dos mares e causará impacto na agropecuária, no acesso à água e na vida da fauna, com risco de levar muitas espécies à extinção. Problemas desse tipo, de acordo com os especialistas, terão maior ou menor gravidade conforme o ritmo da elevação da temperatura, associado a fatores naturais e a outras agressões ao meio ambiente.
O IPCC dividiu as previsões sobre o comportamento do clima em diferentes cenários. Nos mais prováveis, a temperatura média do planeta aumentará neste século de 1,8 a 4 graus centígrados. Nas projeções consideradas possíveis, a variação pode ser de 1,1 a 6,4 graus. O aumento mínimo, que é a melhor das hipóteses, só seria verificado se houvesse uma mudança muito rápida e radical do sistema econômico mundial para torná-lo sustentável. No extremo mais dramático, se nada mudar - ou seja, se a população e a economia continuarem crescendo no mesmo ritmo e se o uso de combustíveis fósseis não for reduzido, o aumento do calor superaria os 6 graus até o ano 2100.0 mais provável, segundo os cientistas, é que a elevação seja de 3 graus centígrados - o que já é suficiente para provocar mudanças significativas no ambiente, com conseqüências incontroláveis.
Refugiados do clima
Um dos efeitos mais preocupantes do aquecimento global é a elevação do nível do mar. Dependendo do cenário de maior ou menor emissão de gases, o nível dos mares pode aumentar de 18 a 59 centímetros neste século. Essa previsão é considerada otimista por muitos especialistas, pois não leva em consideração o degelo da Groenlândia nem o da Antártica. O maior volume dos oceanos, mesmo na previsão menos catastrófica, coloca em risco as
cidades costeiras do mundo, como Rio de Janeiro e Xangai, além dos países localizados abaixo do nível do mar, a. exemplo de Bangladesh.
As nações insulares serão as mais afetadas.
Em Papua Nova Guiné, no Pacífico Sul, o arquipélago de Carteret, ao norte da ilha de Bougainville, deverá desaparecer por completo nos próximos anos. O avanço do mar dividiu as ilhas ao meio, e a população, que já não consegue manter seus meios de sustento, está sendo deslocada para campos de refugiados ao sul do arquipélago. Pelas previsões do IPCC, o problema deverá se multiplicar em todos os continentes nas próximas décadas. Milhões de pessoas precisarão se deslocar e o mundo terá de lidar com um novo tipo de êxodoo dos refugiados do clima.
Ciclones mais freqüentes
As previsões realizadas pelo relatório têm como base os dados climáticos coletados nos últimos anos. Os números apontam uma mudança considerável do clima terrestre. Desde que começaram os registros, em 1850, 11 dos 12 anos mais quentes ocorreram a partir de 1995. Segundo os cientistas, neste começo de século, fenômenos climáticos extremos como ondas de calor, secas e enchentes serão cada vez mais freqüentes. Ciclones tropicais, como o Katrina, que devastou Nova Orleans em agosto de 2005, tendem a se intensificar. O mesmo se dará com a velocidade dos ventos e as precipitações. As chuvas serão mais torrenciais nas latitudes mais extremas e mais amenas nas áreas subtropicais. E o calor será mais agudo no Hemisfério Norte.
O clima mais quente mudará a paisagem da Terra, como já ocorre no Ártico, onde a camada de gelo que recobre o oceano encolhe, ano a ano, tanto em extensão quanto em espessura da camada de gelo que recobre o oceano. Os técnicos do Centro Nacional de Pesquisas Atmosféricas, dos EUA, avaliaram como a cobertura de gelo no Ártico vem variando dedde 1870 e concluíram que daqui a dez anos a área congelada poderá encolher de 5,9 milhões de quilômetros quadrados para 1,9 milhão a cada verão. A espessura média poderá diminuir de 3,6 metros para apenas 90 centímetros. Num futuro não muito distante, o Ártico poderá ficar totalmente sem gelo durante o verão. Em 2006, os cientistas já verificaram que a redução da camada de neve coloca gravemente em perigo os ursos-polares. Com os invernos mais curtos, o mar fica menos tempo congelado e esses animais têm menos tempo para capturar focas.
No resto do mundo, os efeitos do aquecimento global para a biodiversidade são ainda imprevisíveis. Sabe-se, no entanto, que os oceanos mais quentes podem levar à extinção os bancos de corais, berçários de peixes que sustentam a atividade pesqueira. O aumento da temperatura também atinge as florestas tropicais, com a redução das chuvas. Com mais calor e menos umidade, a vegetação se tornará mais seca e vulnerável a incêndios. A alteração no regime de chuvas poderá causar, ainda, impactos negativos nos reservatórios de água, trazendo grandes prejuízos para a agricultura – problema que será agravado por outras pressões das atividades humanas, como a ocupação urbana desordenada, a poluição dos mananciais e o assoreamento dos rios.
Cobertor além da medida
O efeito estufa é um fenômeno natural. Os gases que compõem a atmosfera funcionam como um cobertor que retém no planeta parte do calor vindo do Sol.
Não fosse isso, a Terra estaria eternamente congelada. O problema ocorre quando o cobertor fica pesado demais. Isso se dá com o aumento da concentração de alguns gases, como o dióxido de carbono (CO
2) e o metano (CH
4). E esse aumento está diretamente associado à ação do homem. Os cientistas constataram que, antes da Revolução Industrial, a concentração de gases desse tipo na atmosfera era 280 partículas por milhão. Em 2005, a concentração já era de 379 partículas por milhão. Por isso, nesse último relatório, o IPCC afirma que há 90% de certeza de que o aquecimento global seja resultado das ações do homem – e não de fatores naturais. A queima de combustíveis fósseis por veículos, indústrias, termelétricas não nucleares, desmatamento e até pela agropecuária é o principal motivo.
O relatório soa como um preocupante sinal de alerta. Os cientistas advertem que a situação, já irreversível, pode sair totalmente do controle. As previsões mobilizaram as forças políticas do mundo. Após a divulgação do documento, liderados pela França, 46 países sugeriram à ONU a criação de uma agência ambiental especial com mais autonomia para lidar com o tema. E a União Européia decidiu incluir critérios ambientais em todos os seus acordos comerciais. Os EUA, os maiores emissores dos gases que agravam o efeito estufa, ainda estão relutantes a tomar medidas concretas para diminuir a fumaça das chaminés. Em janeiro de 2007, antes da divulgação do relatório do IPCC, o presidente George W. Bush reconheceu pela primeira vez que as mudanças climáticas são um sério desafio. Mas não propôs nenhum corte na emissão de gases pelas indústrias. Apenas se disse confiante na tecnologia que ajudará a cuidar do meio ambiente e anunciou investimentos para a adoção de combustíveis mais limpos do que o petróleo.
Revisão de metas
Diante da política norte-americana, pouco se espera da primeira fase do Protocolo de Kyoto. Esse acordo internacional prevê que até 2012 os países industrializados reduzam a quantidade do gases do efeito estufa lançados no ar para um patamar 5,2% das emissões de 1990. Os especialistas já consideram esse compromisso insuficiente para abrandar o problema. A partir da gravidade das últimas previsões do IPCC, esforço internacional passa agora a se concentrar no segundo período do tratado, quando os países deverão fazer uma revisão das metas, tornando-as mais abrangentes e eficientes.
Um estudo encomendado pelo governo britânico, denominado Revisão Stern, mostrou que o custo da ação é menor do que o da inércia. Segundo o relatório, publicado em outubro de 2006, para reduzir as emissões de carbono e evitar que a temperatura global suba 2 graus centígrados até 2050, o investimento necessário é de 1% do PIB mundial ao ano. De outro lado, se nada for feito nesse sentido, os prejuízos provocados pelas mudanças climáticas poderão comprometer até 20% da economia global no mesmo período.
Pelo Protocolo de Kyoto, os países em desenvolvimento não são obrigados a cumprir metas de redução da emissão de gases. Mas há pressões internacionais para que essas nações assumam compromissos no segundo período do tratado. Por causa do desmatamento, o Brasil, por exemplo, é o quinto maior emissor de gases do efeito estufa do planeta, atrás apenas de Estados Unidos, China, União Européia e Indonésia. Sem considerar a derrubada de árvores, cada brasileiro lança na atmosfera 1,8 tonelada de CO2 por ano, de acordo com a organização ambiental WWF. Somando a destruição da floresta, esse número sobe para 12,8 toneladas ao ano, por cabeça. Para reduzir essas estatísticas, existem três caminhos: diminuir o desmatamento, plantar florestas e criar áreas protegidas.
Amazônia em brasa
A Amazônia poderá registrar na segunda metade deste século uma elevação de temperatura de 3 a 5 graus centígrados e uma redução de 5% a 15% das chuvas, em conseqüência das mudanças climáticas do planeta. Essa é a previsão otimista do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Na estimativa mais pessimista, o calor aumentaria entre 4 e 8 graus, com redução de 15% a 20% das chuvas. Além de afetar a biodiversidade e deixar o nível dos rios mais baixo, o aumento da temperatura deve alterar o transporte de umidade da Amazônia para outras regiões do país, com impactos na agricultura e na geração de energia hidrelétrica.
Para todo o território brasileiro, as previsões não são muito mais tranqüilizadoras. O lnpe calcula o aumento médio do calor para todo o território nacional em 1,4 grau, na melhor das hipóteses, e em 5,8 graus, no cenário mais preocupante. O Nordeste poderá se tornar até 20% mais seco, com graves conseqüências para a população e para a biodiversidade.
O relatório do IPCC destaca que os países em desenvolvimento, como o Brasil, são os mais vulneráveis às mudanças climáticas, com maior impacto sobre as populações mais pobres. As nações que não se prepararem para enfrentar o problema poderão sofrer grandes perdas, principalmente na produção agrícola. Estudo da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), realizado em parceria com a Universidade de Campinas, em São Paulo, revela que as áreas adequadas para o cultivo da soja poderão ter uma redução de até 75% se as previsões sobre o aquecimento global se confirmarem.
Saiu na imprensa
A Terra está sob forte estresse, diz estudo
Com os resultados apresentados na sexta-feira em Paris pelo IPCC (Painel Intergovernamental de Mudança do Clima), o mundo já sabe que a culpa pelas aceleradas alterações climáticas das últimas décadas é do próprio homem.
Mas, conforme mostram as últimas análises do IGBP (Programa Internacional Geosfera-Biosfera, na sigla em inglês), várias outras alterações em curso na Terra também devem ser debitadas na conta dos humanos. (...) As mudanças climáticas são apenas uma das causas que estão estressando o planeta. Existem várias outras que precisam ser estudadas e levadas também em consideração.
"O estudo da Terra como um sistema (...), onde se olha não apenas para o clima, mas para as mudanças nos oceanos e no uso do solo, e para o papel que os humanos desempenham em tudo isso, é fundamental para que possamos construir um planeta sustentável", disse na sexta-feira Kevin Noone, diretor do IGBP (...)
Existem problemas em todos os lugares(...) Por exemplo, 50% da superfície do planeta está hoje domesticada de forma direta pelo homem. Esse uso indevido do solo gera erosões nas grandes cidades e até a diminuição nas dimensões das praias nas zonas litorâneas. No mar, a pesca predatória já ocorre sobre 7% das espécies de valor comercial (...) A extinção das espécies vegetais e animais também atingiu padrões irreais neste século (...).
Folha de S.Paulo, 5/2/2007
Resumo
EFEITO ESTUFA
É um fenômeno natural. Os gases que compõem a atmosfera retêm no planeta parte do calor recebido do Sol. Esse efeito é potencializado e se torna prejudicial quando há um aumento na concentração de alguns gases, como o dióxido de carbono (CO2) e o metano (CH3), liberados por indústrias, veículos, desmatamento e agropecuária.
IPCC
O relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, divulgado em fevereiro de 2007, revela que a temperatura do planeta deverá aumentar em média 3 graus centígrados neste século, com conseqüências que poderão ser catastróficas. Pela primeira vez, a ONU afirma que há 90% de certeza de que as mudanças climáticas são causadas pela ação humana.
EFEITOS NO MUNDO
As geleiras dos pólos já começam a derreter, e o Ártico poderá ficar sem gelo durante o verão a partir de 2050. O nível do mar se elevará entre 18 e 59 centímetros até 2100, colocando em risco as cidades costeiras e as nações insulares. Populações vão se deslocar e aumentará significativamente o número de refugiados do clima. Ondas de calor, secas, enchentes e ciclones serão mais freqüentes e intensos. A mudança no regime das chuvas deverá prejudicar gravemente a agricultura.
EFEITOS NO BRASIL
Estudo do lnpe indica que a temperatura média no território nacional pode se elevar de 1,4 a 5,8 graus centígrados. Na floresta Amazônica, o regime de chuvas e o volume dos rios podem ser alterados. O Nordeste pode ficar até 20% mais quente. A Embrapa calcula que a área de plantio de soja possa se reduzir em até 75%.
SOLUÇÕES E REAÇÕES
A União Européia decidiu incluir critérios ambientais em todos os acordos comerciais. Mas os EUA, maiores emissores de gases do efeito estufa, continuam contra a adoção de medidas restritivas.
Fonte: Almanaque Abril (Atualidades Vestibulares, Ed. Abril, 2007)